sexta-feira, 6 de novembro de 2009

sobre(o meu) natural.

espremo meu coração como a uma laranja. tiro todo o sumo.
deixo ficar só o bagaço seco. só a casca.
descontrução. reconstrução.
esfrego-o na pedra na beira do rio. bato na pedra. deixo escorrer o vermelho. lavo na mão. igual meia suja de criança. esfrego. esfrego. esfrego. encardido. jogo água sanitária. torço de um lado. de outro. estiro ao sol.
já sem cor. sem beleza alguma. pálido. largo assim. e viro para cumprir com meus afazeres. tanta coisa pra fazer. tanta coisa que deixei de lado. organizar bagunças, priorizar compromissos. objetivar.
praticidade. tão sobrenatural para mim.
eu com essa minha nascente. que me inunda. me afoga. não dá pra guardar.
tentei de tantas formas. o agora sim . o agora vai. e não foi.
canais. sintonia fina. os chiados. o sem sinal. o fora do ar. eu sou ruim para escolher canais.
meu decodificador quebrado. então desligo a tv. me desligo de tudo. em minha frente uma tela não plana. não estática. aponto o controle pra mim. remoto. porque não é o habitual. e aperto o play.
saudade dos meus 18 anos. com 18 a gente só espera chegar a CNH logo, para sair por aí dirigindo o carro do pai. a gente já se imagina descendo para a praia com os amigos. a gente espera o dia de morar sozinha, a gente se apaixona todo dia, a gente esquece tão rápido. tudo é festa. tudo é lindo. tudo é cor de rosa. a gente só quer viajar muito, fazer muitos amigos, fazer muito amor. sem dramas, sem apegos, sem cobranças. cobrar o quê se a gente nem sabe ainda exatamente o que quer? eu quero ser advogada ou esteticista? ah, eu tento uma coisa e se não rolar eu faço outra. tem tempo.
ainda falta um tempão para chegar nos 30 e até lá dá pra fazer muita coisa. dá pra conhecer o mundo todo.
velocidade incisiva.
hoje eu moro sozinha, não é ainda exatamente como eu queria, já renovei minha habilitação, mais ainda sou péssima para estacionar. queria ter feito uma faculdade, acabei fazendo outra. fiz algumas coisas que gostei muito, outras até agora fico pensando porque fiz, fui algumas vezes à praia com meus amigos, mas ainda nunca viajei de avião. muita coisa que queria ter feito. não fiz. ainda.
ainda. palavrinha esperançosa essa.
ainda não aconteceu.
ainda não chegou.
ainda não fiz.
bendita ou maldita esperança.
e eu salto de dentro de mim para realizar alguns desses aindas que ainda acredito que valem a pena.
cansaço. frustração.
um incômodo olhar do até aqui.
do que ficou. do que restou em mim.
de mim.
e uma absoluta certeza que não há mais nada a oferecer.
não, não desisti da vida. como pode parecer.
ao contrário. ela se descortina em minha frente como um mercado oriental cheio de novidades exóticas. e eu com tanta curiosidade. tanta vontade.
tanta paixão. tanta energia. um novo jeito de amar.
autônomo. livre.
quanto tempo precisou passar. quanta coisa precisou acontecer. quantas vezes passei por louca. e quantas outras até agi assim.
" Loucura, penso eu, é o extremo da lucidez". (
Caio F. de Abreu).
penso igual.
é o extremo do que se suporta calada. é o engolir.
a vida sempre esteve de braços abertos para mim. eu que sempre estive de costas para ela. porque estava de braços abertos para alguém. nos braços de alguém. até cansarem. até sentirem caimbras e me soltarem ao chão. e nele eu ficar. até reaprender a andar. sem precisar de apoio.
não conjugo mais esse verbo.
precisar.
sempre preferi o querer. mas era só um pouco de desatenção que virava precisar.
então chego no hoje e nem preciso e nem quero mais.
extremos de mim. que me fazem dar sobressaltos do doce ao ácido. ouvi.
a minha falta de meio termo que não sabe encontrar um equilíbrio para lidar com o morno que me oferecem.
eu não sou morna.
eu sou o muito quente. ou o muito gelado.
vou engolindo, sufocando, ansiando até não caber mais em mim. refluxos. que podem parecer grosserias. que podem parecer pessoal. e nada mais é do que meu corpo dando sinal. me pedindo socorro. me dizendo pelo amor de Deus para de comer lavagem. para de se intoxicar.
e como não deixar transparecer no rosto todo esse mal estar? interessante porque eu sempre gostei de comer o que me parece bonito no prato. Moela não. Credo é roxa. Dobradinha, quiabo, fígado. Pode ser saudável, pode ser gostoso. Mas é feio demais. Não dou conta.
paradoxo.
porque de resto vou me empapuçando de coisa ruim. até ficar verde. até vomitar tudo.
tudo isso porque o meu natural é esse.
me dar em amor.
amor que eu nunca recebi. vai ver está aí a questão.
eu achava que tinha muito amor para oferecer. sempre me gabei disso. sempre foi meu argumento mais forte. eu sou o melhor amor que pode ter.
pensando bem, é impossível dar aquilo que na verdade nunca se teve. eu não tive. nem de mim por mim.
então. não faz sentido.
primeiro eu preciso receber. conhecer. saber como é .
e assim encerro.
sem esperar. mas sem nada para oferecer.
o que vier. que seja de bom grado. será benvindo.


Filme do dia: La Soledad.
Música do dia: Pra rua me levar - Ana Carolina.







Nenhum comentário:

Postar um comentário