ela teve um sonho. ruim.no meio da rua foi atropelada por um mar de gente.
arrastão.
eram todos maiores que ela. gigantes.
nenhum estranho. só rostos conhecidos. os mais conhecidos.
ninguém ao seu favor.
pediu socorro. mas sem êxito.
minúscula. sem defesa.
rasgaram sua roupa. chutaram seu corpo. gritavam ao mesmo tempo.
violentaram um por vez. respeitaram a vez de cada um.
macularam. física. sexual e emocionalmente.
por fim CUSPIRAM no que restou.
quando ela pode olhar enxergou o desprezo. a satisfação.
procurou um rosto amigo. ninguém podia lhe salvar.
sua mãe estava ali de pé com aquele ar de repreensão e de cobrança. (tudo isso é culpa sua, é o que diria).
seu pai não enxergou nada. estava numa ligação importante.
jogada ali. sem conseguir se levantar. já preferia não levantar.
seus ossos e coração quebrados. fratura exposta.
então só me deixem assim. pensou.
até terminar de definhar. porque a vontade que eu tinha morreu. e agora só resta esperar que todo o resto morra junto. era só o que ela queria.
olhava para seus restos. segurou o coração parecendo papel machê molhado. despedaçado. dissolvido. borrado.
e sentiu que não podia mais.
não mais pela metade. não mais confuso. não mais migalhas. não mais perdas.
poderia ficar jogada ali para sempre. mas sua mãe a arrastou pelo braço, nem se importando onde doía. o rosto sujo de sangue, porra, saliva e areia. mas ela só a jogou debaixo do chuveiro e disse se lava, se arruma, e não atrasa mais o meu dia.
ela acordou.
entendeu o recado.
ficou com a sensação da dor. da humilhação. das perdas. do desânimo.
pensou dez vezes para levantar da cama. levantou. nem tomou banho. vestiu qualquer coisa. ajeitou o cabelo. chorou. enxugou as lágrimas e saiu sem muito propósito.
só querendo estar de onde não devia ter saído.
só isso.
Filme do dia: Irreversível.
Música do dia: No surprises- Radiohead
"...No alarms and no surprises, Silent, silent... This is my final fit, my final bellyache with"...
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